O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma doença cerebral, de instalação súbita, causada pela interrupção do fornecimento de sangue ao cérebro, devido a um bloqueio (chamado AVC isquémico) ou rompimento (chamado AVC hemorrágico) de uma artéria cerebral.
Dados da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral indicam que o AVC continua a ser a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. Estima-se que cerca de dois terços dos doentes que sofreram um AVC fiquem com sequelas motoras, cognitivas ou comportamentais, com consequências importantes ao nível social, familiar e profissional.
O papel da reabilitação no pós-AVC é determinante na recuperação dos doentes, de forma a melhorar a sua funcionalidade e qualidade de vida.
A Terapia da Fala é parte integrante da vasta equipa de reabilitação.
Sendo a Terapia da Fala é uma das áreas que intervém na reabilitação de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e dependendo do tipo e localização da lesão, podem surgir diferentes complicações, tanto a nível da linguagem (afasia), dos défices motores ao nível da fala (disartria) e/ou da deglutição ‘’ato de engolir’’ (disfagia).
O principal objetivo da Terapia da Fala é maximizar a comunicação, abrandando as capacidades perdidas para que seja recuperada alguma autonomia e exista um aumento da funcionalidade nas rotinas diárias. Existe também um enfoque, quando necessário, na promoção da capacidade de deglutição.
Caso se evidenciem alguns destes sinais, deve ser iniciado um processo de avaliação, onde deverão ser identificadas as dificuldades, ao nível da comunicação global, da linguagem, da mobilidade nos músculos envolvidos na fala e da deglutição.
Após a avaliação, e caso seja necessária intervenção, esta deve ser individualizada, sendo elaborado um plano de intervenção, adaptado a cada pessoa e às suas necessidades, com base nas diferentes dificuldades e capacidades identificadas durante o processo de avaliação, e tendo em conta os objetivos e as expectativas da pessoa e do terapeuta. É também delineada a frequência e a duração das sessões. Durante todo o processo de intervenção deve existir uma monitorização do plano e reavaliação da pessoa, garantindo-se um acompanhamento centrado na pessoa e nas capacidades que forem sendo adquiridas.
O apoio à família/cuidadores, como intervenção indireta, é primária nestes casos, focando-se no ensino de técnicas e estratégias facilitadoras da comunicação, nos casos de afasias ou disartrias.
No caso de disfagias, no ensino e em eventuais alterações na consistência dos alimentos, e no treino de diferentes técnicas e manobras facilitadores da deglutição, de forma a potenciar a qualidade de vida da pessoa.
Comunicação: LINGUAGEM E FALA
A comunicação é um elemento fundamental da cognição humana, através da qual expressamos necessidades, emoções e opiniões, que fazem de cada um de nós um ser individual, social e participativo. A comunicação (verbal ou não-verbal) é dependente de uma rede complexa de estruturas e processos cerebrais. Ao atingir determinadas áreas cerebrais, o AVC pode conduzir às dificuldades de comunicação.
Estas dificuldades de comunicação podem, de forma geral, ser devido a uma afetação de áreas do cérebro envolvidas na linguagem – a que se dá o nome de Afasia, e/ou a uma afetação de áreas do cérebro envolvidas na fala – a que se dá o nome de Disartria.
AFASIA
A Afasia é uma perturbação adquirida da linguagem, na sequência de uma lesão no cérebro, das quais se destaca o AVC. A Afasia afeta a capacidade de uma pessoa em se expressar quando fala e/ou compreender o que os outros dizem. Pode igualmente afetar a capacidade de ler, escrever e fazer gestos. Estima-se que cerca de 25% dos doentes possam ficar afásicos após um AVC.
Os sintomas de Afasia variam de indivíduo para indivíduo, mas de forma geral, pode-se apontar como sintomas mais comuns:
- Dificuldade em encontrar as palavras ao falar, embora se saiba o que se quer comunicar
- Substituir palavras ou sons ao falar, por exemplo dizer “leite” em vez de “sumo”
- Falar utilizando frases curtas ou incompletas
- Dificuldade em compreender o que os outros dizem
- Dificuldade em compreender o que se lê ou em ler em voz alta
- Dificuldade em escrever palavras ou frases
- Dificuldade em gesticular ou compreender os gestos feitos pelos outros
Ao afetar a capacidade de linguagem, a Afasia compromete a comunicação, participação e autonomia nas atividades diárias, papeis sociais e familiares, com consequências psicossociais importantes.
A intervenção do Terapeuta da Fala com as pessoas com afasia e familiares/cuidadores é determinante para a recuperação da linguagem e desenvolvimento de estratégias de comunicação que ajudem a pessoa com a afasia a comunicar o mais eficazmente possível.
Para além da intervenção direcionada à pessoa com afasia, o Terapeuta da Fala tem um importante papel na educação de outros profissionais da equipa multidisciplinar e familiares/cuidadores/amigos sobre estratégias comunicativas que possam potenciar a comunicação com a pessoa com afasia.
DISARTRIA
Para falarmos de forma clara, é necessário um controlo adequado da musculatura oral e respiratória. A Disartria é então definida como a dificuldade em utilizar esta musculatura durante a articulação da fala. A Disartria é uma sequela muito comum após o AVC (uma prevalência de cerca de 60%), embora o grau de afetação da inteligibilidade da fala varie consideravelmente entre os doentes com Disartria.
De forma geral, pode indicar-se como sintomas mais comuns:
- Falar devagar ou “arrastar” as palavras ao falar
- Falar muito baixo ou sussurrado ou com a sensação de voz estrangulada
- Dificuldade em produzir determinados sons ao falar
- Alteração na entoação das palavras ao falar
- Dificuldade na mobilidade dos lábios, língua ou outros músculos orofaciais
Após a avaliação, o tipo de reabilitação mais adequado será ajustado de acordo com a severidade do caso e características do quadro, podendo centrar-se, por exemplo, na recuperação das funções de fala perturbadas ou, em casos severos, na implementação de estratégias comunicativas aumentativas ou alternativas.
DEGLUTIÇÃO
A deglutição é um processo fisiológico complexo, que garante o transporte seguro do alimento desde a boca até ao esófago, evitando a passagem do mesmo para as vias aéreas. O processo de deglutição é controlado por mecanismos neurológicos, musculares e sensoriais, os quais podem ser afetados pela ocorrência de um AVC.
A Disfagia acontece quando existe uma alteração neste processo de deglutição. A Disfagia é uma importante complicação do AVC agudo, afetando entre cerca de 30 a 55% dos doentes. Dependo da severidade da situação clínica, a Disfagia pode permanecer como um problema crónico, com prejuízo para a qualidade de vida do individuo. De referir que o paciente com Disfagia apresenta um risco 3 a 7 vezes maior de pneumonia por aspiração (ou seja, pneumonia por entrada de alimento na via respiratória e pulmões), aumentando o risco de complicações clínicas, o tempo de internamento hospitalar e até a possibilidade de morte. É comum que, após o AVC, ocorram alterações de sensibilidade que podem conduzir a aspiração silenciosa, sem qualquer sinal como a tosse ou engasgo, pelo que nestes casos o risco de pneumonia é agravado.
De forma geral é importante estar alerta para sintomas e sinais de Disfagia, tais como:
- Dificuldade em controlar a saliva;
- Dificuldade em segurar o alimento na cavidade oral (boca);
- Sensação de alimento preso na garganta ou necessidade de expelir conteúdo alimentar;
- Ficar com o alimento na boca depois de engolir;
- Deglutir várias vezes para um bolo alimentar pequeno;
- Não ser capaz de mastigar os alimentos;
- Demorar muito tempo para engolir ou completar uma refeição;
- Tossir antes, durante ou após (imediata ou tardia) a deglutição;
- Voz “estrangulada” ou “molhada ou gargarejada” após a deglutição;
- Pneumonias de repetição;
- Pneumonias sem causa aparente;
- Febre sem causa aparente;
É fundamental que doentes com Disfagia sejam observados por um Terapeuta da Fala, para que possam ser avaliadas as dificuldades específicas de deglutição e implementado o tratamento mais adequado, o mais rapidamente possível, de forma a garantir a segurança da alimentação.
Neste processo o Terapeuta da Fala irá observar o doente a comer ou beber diversas consistências alimentares (sólidas, pastosas e líquidas), examinando a funcionalidade da deglutição, mas também e, de forma detalhada, os movimentos dos músculos envolvidos. Em muitos casos, a avaliação da deglutição poderá ser complementada com um exame médico, feito pelo Otorrinolaringologista e Terapeuta da Fala, usando uma pequena câmara, inserida através do nariz, que possibilita a visualização da laringe, faringe e parte do esófago e que serve para avaliar a morfologia, sensibilidade e mobilidade das estruturas e músculos durante a deglutição.
A reabilitação será sempre de acordo com as dificuldades específicas de cada paciente e pode, de forma geral incluir modificações à dieta (por forma a garantir que apenas consistências alimentares seguras são ingeridas), técnicas e estratégias para uma deglutição segura e exercícios direcionados para fortalecer os músculos envolvidos na deglutição.
Concluímos relembrando a importância na identificação dos sinais de alerta para a ocorrência de AVC, devendo contactar imediatamente os serviços de emergência: Face descaída, dificuldade em Falar e perda de Força num dos lados do corpo.
Caso tenha sofrido, ou conheça alguém que tenha sofrido um Acidente Vascular Cerebral e apresente dificuldades na comunicação ou deglutição, procure um Terapeuta da Fala.

